9 de jul. de 2008

TINTAS por Nathielle Wougles

Era uma artista renomada, com carreira internacional, reconhecida por todos! Seus quadros enfeitavam de arte as parades daqueles que usam o dinheiro como trivialidade. Era muito rica e tinha apenas 30 anos.
Não sabia o por quê do seu ofício... Pintava desde sempre, desde quando sua cordenação motora permitia e sabia que era ótima! Quando lhe perguntavam sobre sua profissão, ela ficava sem resposta, como se as tinta que usava nas telas sujassem sua memória de vários tons diferentes. Não sabia de nada sobre as telas brancas, sobre as tintas-óleo, sobre os pincéis... Só amava aquilo com uma força bruta!
O dinheiro já tinha lhe comprado tudo, exceto uma coisa, seu sonho utópico e fervente: o quadro Puberty de Edvard Munch! Tinha fascínio por ele, pelas cores, pelas expressões, pelos tons... Munch era seu pintor preferido e buscava ter em seus quadros a mesma atmosfera que ele tranferia ao leitor/admirador.
Comprou! Seu último sonho foi realizado, sentia-se pronta para morte. Depois daquela compra nada mais importava...Nem o cheque que assinou com vários zeros e um cifrão absurdo.
Era a hora de escolher o local onde o quadro seria endeusado. Pensou minusiosamente no local, sua iluminação, tudo! Colocou-o no ângulo agudo formado pelo ateliê e a sala... Ali estava ele pronto para ser admirado. Como era lindo, Meu Deus! (era tão cética...).
Depois de horas, minutos, segundo fitando Puberty, resolveu retomar suas atividades normais, agora sendo observada pelo quadro...
Algumas semanas se passaram e fazendo a passagem entre o ateliê e a sala, lá estava a obra, parecia tão inocente, de uma inocência que ela já não tinha nem vestígios! Com uma paleta de misturas na mão parou em frente ao quadro e ficou entorpecida pela inocência da puberdade que (como sempre), não lembrava se já passara por isso. Era uma linha tênue que separava a menina da mulher, assustadoramente frágil. Tentou puxar na memória qualquer lembraça de seus 11 anos, mas só apareciam imagens de tintas de diversas cores, de misturas, de tons, de composições nunca antes imaginadas e que ela conseguia achar... Não lembrava de nada retórico que Puberty lhe transmitia.
Irritou-se, como Munch conseguia passar toda essa emoção num quadro???
Voltou ao ateliê e examinou suas obras: nenhuma delas tinha sentimentos próprios, eram as lembranças de outros, sentimentos absorvidos porque nunca passara por nada, deixava tudo do lado de fora da sua alma. Os quadros de sua autoria não passavam de plágios das sensações mortais!
Voltou ao ângulo agudo, onde Munch descansou seu pincel. Com ódio jogou a paleta de tintas sobre o quadro maculando-o de todas as tintas possíves, esfregou aquela mistura horrenda com todos os covardes intuitos humanos. Voltou dois passos com as mãos cheias de tinta que no momento pareciam sangue em suas mãos: acabara de assassinar Puberty!
Pronto, ali estava um quadro seu, com sentimentos seus. Um quadro retratando o ódio do vazio!

"AQUI JAZ UM EU QUE NÃO EXISTE MAIS!"

2 comentários:

Patrick Lubawski disse...

muito bom o texto! impressionante como alguns sentimentos floram das maneiras mais improváveis! adorei!

Unknown disse...

Muito legal o conto.. Adoeri...

Alexandre